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Kleber de Oliveira
São Paulo - SP

 

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Como recomecei minha criação de Guppies

A minha paixão por peixes ornamentais começou quando eu tinha 5 anos; havia uma loja perto da minha casa, e, sempre que possível, eu ia lá para namorar os bichinhos.

Um dia, depois de juntar dinheiro por um bom tempo (deixando de comprar balas com a minha minguada mesada), fui à loja e comprei alguns peixes; o detalhe é que eu não tinha aquário (e o pessoal da loja não se preocupou em perguntar).

Chegando em casa, imaginem a surpresa da minha mãe, que teve que arranjar às pressas um "aquário", usando um vaso de cristal! Infelizmente, no dia seguinte, tive que voltar à loja para devolver os peixes; mas era tarde: eu já estava contaminado pelo "vírus" do aquarismo.

No Natal seguinte, ganhei o meu aquário, e daí em diante tive vários, com tamanho de até 300 litros, normalmente com peixes variados de água doce.

A febre pelos guppies começou mais tarde, quando conheci um senhor que criava; comecei minha criação, com matrizes cedidas por êle, e cheguei a ter 8 aquários com o nosso amigo Guppy.

As matrizes, apesar de melhores do que o normalmente encontrado em lojas, estavam longe do que podemos obter dos criadores americanos e europeus (e agora também no Brasil, através dos criadores do CCG); a técnica, eu não tinha e, em consequência, o resultado não foi grande coisa.

Depois de 3 anos, por falta de espaço, tive que desativar a criação, mantendo apenas um aquário comunitário. Isto foi mais ou menos em 1972.

No comêço deste ano, achei pela internet vários sites relacionados ao guppy, e, como tenho espaço, resolvi voltar a criar; estava no processo de definir como traria as matrizes do Estados Unidos quando fiz contato com o Rodrigo do CCG, que já havia trazido peixes de lá; a decisão foi tomada: em julho eu iria a Nova York, e aproveitaria para visitar um criador para acertar a compra dos peixes.

Em paralelo a este processo, fiz o planejamento para que tudo corresse da melhor forma possível.

1. Em Junho, comprei um aquário pequeno, que depois seria montado para a minha filha, para fazer testes com a minha água, tipos de filtro, e aquecedores (equipamento infelizmente necessário aqui em São Paulo).

2. Com base nas informações que encontrei nos sites da internet, projetei o meu setup, que na primeira fase teria 24 aquários: 8 medindo 20x30x35, para as matrizes e filhotes até um mês; 8 medindo 20x40x45 e 8 medindo 20x35x55, para o desenvolvimento dos peixes após um mês; estas medidas, bem como o tamanho e forma das estantes para os aquários, foram definidos em função da área disponível em uma das paredes destinadas ao setup; foi tudo feito sob medida, utilizando vidro de 5mm para os aquários (pelo tamanho o vidro poderia

 

ser mais fino, mas eu optei pelo de 5mm por questões de segurança no manuseio). A segunda fase do setup ainda não está implantada e, em função da experiência que tive até agora, sofreu alterações; vou descrever como será mais adiante neste artigo.

3. A partir das recomendações obtidas pela Internet, decidi não usar areia ou plantas; os criadores profissionais pintam o fundo dos aquários de prêto; eu tentei evitar isto apoiando os aquários sobre um fundo prêto, mas não gostei do resultado pois o fundo continuou a funcionar como um espêlho, contribuindo entre outras coisas para o crescimento de algas verdes; hoje estou colocando contact prêto no fundo e contact azul claro no vidro trazeiro de todos os aquários; o resultado, além de esteticamente muito bonito, cria um ambiente aparentemente mais aconchegante para os peixes.

4. Na visita ao americano, além de ficar impressionado com as instalações dele (mais de 200 aquários, com tudo funcionando perfeitamente), decidi começar a criação com uma linhagem, os multicor, com os quais êle tem sido campeão da IFGA nos últimos anos. Encomendei dois trios, pois a idéia era fazer o linebreeding; isto significa que de cada trio você tira matrizes da melhor ninhada - um novo trio - e vai fazendo o imbreeding - cruzamento entre irmãos - e assim sucessivamente por umas três gerações; em outras palavras, você mantém duas linhas separadas da mesma linhagem (multicor), cada linha a partir de um trio. Depois da terceira geração, você escolhe o melhor trio em cada linha, só que agora, em vez de manter o cruzamento entre irmãos, você cruza o macho de uma linha com as fêmeas da outra, e vice-versa, recomeçando de novo o processo.

Eu resolvi começar com apenas uma linhagem, apesar de que, com 24 aquários na primeira fase do meu setup, eu teria aquários sobrando; a razão disto é que desta forma eu teria possibilidade de aprender mais sobre a parte técnica e desenvolver a minha própria experiência, sem ter o problema de falta de aquários, tão comum quando se trata de criar guppies.

5. Chegando de volta ao Brasil, encomendei as estantes, os aquários e o restante dos equipamentos (filtros, aquecedores e complementos); eu preferi esperar, pois queria confirmar com o americano se o que eu estava pensando era a melhor forma de começar. Valeu a pena, pois em função dos conselhos dele pude fazer alguns ajustes, o que é sempre bom poder fazer antes de começar.

6. No dia 13 de Agôsto (uma quarta-feira) êle me mandou um e-mail, informando que tinha mandado os peixes; levei um susto, já que eu só iria receber os aquários no dia 15; comprei mais um aquário pequeno, e preparei, imaginando que levaria alguns dias para os peixes chegarem (os do Rodrigo chegaram em Belo Horizonte em uma semana); qual não foi a minha surprêsa quando os peixes chegaram no dia 14 (um dia depois da remessa). Isto nunca aconteceu antes, e, provavelmente não vai ocorrer de nôvo.

 

 

7. Chegando em casa, fiz a adaptação dos peixes como recomendado; o trio 1, que chegou com 3 meses, ficou no aquário mais antigo e teve uma adaptação perfeita; o trio 2, que chegou com 2 meses e 8 dias, ficou no aquário preparado na véspera, e como era de se esperar, mostrou sinais de choque.

8. Foi aí que eu cometi o primeiro êrro: na sexta-feira, como previsto, recebi os aquários, e montei alguns no sábado (no comêço ainda sem o contact); na pressa de ver os peixes na sua casa, fiz a mudança no domingo; como resultado, do trio 1, que estava perfeitamente adaptado, perdi o macho e uma fêmea, por choque; o trio 2, que estava um pouco chocado, permaneceu assim por uns dias mas os peixes foram em frente e estão bem até hoje.

9. Para poder manter as duas linhas, mantive a fêmea que sobrou do trio 1 separada, e, como ela estava impregnada, deixei que tivesse duas crias, antes de juntá-la com os peixes do outro trio.

10. Hoje estou com 12 ninhadas, com a seguinte combinação genética:

a) duas ninhadas da fêmea do trio 1, sozinha;

b) três ninhadas da fêmea do trio 1 junto com o macho do trio 2;

c) quatro ninhadas de uma das fêmeas do trio 2;

d) três ninhadas da outra fêmea do trio 2 (deveriam ser 4, mas como o ciclo entre ninhadas está inferior a 30 dias, ela teve uma ninhada com 22 dias, dentro do aquário das matrizes; quando eu percebi já era tarde e os filhotes foram todos comidos).

11. A primeira ninhada, da fêmea do trio 1, nasceu no dia em que ela fêz 3 meses e 9 dias ( 23 de agôsto ); no dia 7 de dezembro, as fêmeas desta ninhada, que não estão separadas, tiveram cria no aquário de desenvolvimento; todos os filhotes foram comidos, mas a idéia não era manter estas crias; tenho fêmeas virgens separadas, que serão usadas no caso de eu tirar matrizes desta ninhada.

12. Até agora tive dois problemas:

  1. criar artêmias para alimentação - tentei ovos de artêmia comprados aqui, trouxe de fora, mas a "mistura"que eu fazia não dava uma eclosão consistente; ou não nascia quase nada ou quando eu ia tirar já estava tudo morto; um dia, depois de receber ovos de artêmias importados pelo Rodrigo, sem querer acertei a receita:

    • estou usando duas garrafas de Coca Cola de 2 litros, cortadas, mais ou menos abaixo do rótulo; a parte de baixo eu enchi com àgua e nela colei a parte superior, com a boca para baixo; desta forma, eu mantive uma boa base, com pêso proporcionado pela àgua.

    • mantenho as culturas dentro de um aquário pequeno, com àgua aquecida a 30 graus, com aeração permanente com pedra porosa em cada cultura.

    • eu havia experimentado fazer a cultura com sal grosso, e com sal marinho, mas como descrevi acima, não conseguia resultado; um dia, coloquei duas colheres de chá de sal grosso no recipiente e medi o PH (na lata é recomendado 8); para minha surprêsa, o PH ficou mais baixo do que estava antes (a minha água tem PH de 7,4); coloquei duas colheres de chá de sal marinho; o PH subiu; coloquei os ovos de artêmia (duas colheres de café rasas); no dia seguinte, com 24 horas, eu tinha uma bela cultura, com um nível de eclosão superior a 90%.

    • no dia seguinte, repeti a receita e funcionou; hoje alimento os meus peixes de manhã e à noite com artêmia recém nascida, com esta receita.

  1. água verde - os meus aquários ficam em um terraço, coberto mas com parte da cobertura em vidro; com a iluminação, apesar de eu ter colocado cortina, tive uma grande incidência de algas verdes; se elas ficassem só nos vidros não seria problema, já que servem de alimento; a encrenca é que a água fica verde, ao ponto de ficar difícil de ver os peixes; eu tentei remédio, mas não vale a pena, pois faz mal aos peixes (apesar do rótulo informar que não); na minha opinião, depois que coloquei a cortina de proteção, o problema continuou devido a dois fatores: o espelho no fundo dos aquários, refletindo mais a luminosidade - com a colocação do contact prêto no fundo me parece que a situação tende a melhorar; o uso de filtro de esponja, pois me parece que, depois que êle absorve as algas você não consegue retirar e a esponja passa a ser fonte de algas em um aquário recém instalado; estou trocando os filtros de esponja por filtro caixa plástica ( como fazem os americanos, na qual coloco um pouco de dolomita (ajuda a manter o PH alcalino) e lã de vidro; estou usando o filtro Brasil número 2, sem a tampa, pois permite que os peixes comam artêmias e outras comidas que ficam por cima do material filtrante. Se com estas duas mudanças ( contact no fundo e filtros ) eu não resolver o problema, vou colocar uma cobertura de plástico prêto na frente de cada grupo de aquários, no período de maior incidência de claridade; aí eu acho que não vai ter alga verde que resista.

13. A alimentação que eu uso consiste de artêmia recém nascida, 5 tipos de flocos da Tetra ( que eu misturo ), 3 tipos de flocos de um criador americano (Dave Polunas, que encontrei no show em Newark - ver artigo na página), e camarão sêco moído. Os flocos são misturados (os da Tetra em um grupo e os do Dave em outro) e moídos em um moedor de pimenta (nôvo que comprei só para isto); para os filhotes eu regulo de modo a sair um pó bem fino; para os maiores eu regulo para que permaneça em flocos bem pequenos. De manhã eu dou duas rodadas de flocos e artêmia; à noite, quando chego em casa, uma rodada de pó de camarão, uma rodada de flocos e artêmia. No fim de semana eu dou mais duas ou 3 rodadas de flocos durante o dia. Acho que está funcionando, pois os peixes estão tendo um desenvolvimento excelente - na mesma idade, estão melhores do que as matrizes que recebi.

14. A minha água tem PH 7,4 e DH 5,0 - na preparação eu uso uma colher rasa de chá de sal grosso e duas gotas de um condicionante chamado Dechlor Ease para cada 5 litros; uso água filtrada, já que na minha tubulação às vezes tem contaminação de óxido de ferro. A temperatura, agora no tempo quente, fica entre 78F (à noite, regulado pelo aquecedor) e 84F (nos dias mais quentes); eu uso um aquecedor italiano, com termostato integrado, que permite a regulagem da temperatura que você quizer.

15. Toda semana eu troco parte da àgua - 50% nos aquários de filhotes até um mês e 30 a 40% nos demais - esta troca é fundamental, para reduzir os níveis de sais e hormônios liberados pelos peixes; além disso, com o sifonamento, toda a sujeira é retirada do fundo, evitando o excesso de bactérias no aquário.

16. Em relação ao número de aquários, a minha conclusão é que para cada linha você deve ter um mínimo de 7 aquários ( o que significa 14, se você vai ter duas linhas de uma mesma linhagem ); destes 7, 3 na faixa de 20 litros para as matrizes (1) e filhotes até um mês (2, considerando que você vai ter só duas fêmeas como matriz); 4 na faixa de 35 a 40 litros, para desenvolvimento, o que permite a cada uma das duas fêmeas matrizes ter duas ninhadas.

17. Em função disto, como eu pretendo criar quatro linhagens, o meu setup final vai ser:

  1. 6 aquários de 14 litros para os trios de matrizes ( muitos criadores usam este tamanho pois facilita o trabalho do macho ), onde eu vou usar dois para duas linhas dos multis, dois para duas linhas de pastel (que vou trazer de fora pois ainda não existem aqui) um para uma linha de green e um para uma linha de halfblack blue green (estas duas eu vou pegar com o Rodrigo; quando precisar fazer o linebreeding, eu pego novas fêmeas com êle).

  2. 12 aquários de 20 litros para filhotes até um mês.

  3. 24 aquários de 35 a 40 litros para desenvolvimento de duas ninhadas de cada fêmea.

  4. 4 aquários de 35 a 40 litros, para guardar os meus "show guppies", aqueles que vou separar para exposições.

  5. 2 aquários de 35 a 40 litros para colocar os peixes que, apesar de bons não serão usados nem para matriz nem como ‘show guppies"; estes peixes, a partir de 4/5 meses serão vendidos para lojas (a preço de peixe bom). Estes peixes normalmente seriam descartados pelos criadores americanos (apesar muitas vezes serem peixes excelentes); eu não posso fazer isto pois quero evitar encrenca com a minha mulher e minha filha.Se houver interesse na compra de matrizes minhas, elas sairão dos 24 aquários de desenvolvimento, quando estiverem na faixa de 2,5 a 3,5 meses.

    18. Um detalhe que eu estava esquecendo: as minhas ninhadas, até agora, variaram entre 17 e 56 filhotes; quando eu vou mudar os filhotes para o aquário de desenvolvimento (com 5 a 6 semanas), eu separo 4 a 8 fêmeas, para mantê-las virgens; elas são colocadas no mesmo aquário do restante da ninhada, mas dentro de caixa plástica tôda perfurada, que eu trouxe dos Estados Unidos. Cada caixa mede 15x13x13, a maior, e 13x7,5x7,5, a menor; até onde eu pude observar, a permanência dentro das caixas não afeta o desenvolvimento das fêmeas.

    Bem, se você teve a paciência de ler até aqui, espero que as informações tenham sido úteis para você que deseja criar guppies a sério (show guppies); se houver alguma dúvida, pode me contatar pela internet (eduardo.goncalves@ibm.net).

    Um ponto fundamental, é começar com matrizes de boa qualidade; hoje já é possível conseguir estas matrizes de qualidade aqui, sem os riscos de perder os peixes ao trazer de fora; consulte a página do CCG a respeito.

    A propósito, quando eu falo no ítem 17, no meu setup final, existem duas boas razões para isto: é o tamanho que eu acredito poder administrar como hobby, com o tempo que pretendo dedicar a isto - mais passaria a ser chateação; vai ocupar o espaço que eu consegui no terraço sem criar confusão em casa - apesar de estar expulsando um monte de plantas da minha esposa para colocar as estantes de aquários.

    Eduardo Gonçalves
    Dezembro/1997
          

 

 

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